Chegando ao coração

ESTADOS UNIDOS – ÁFRICA
Por Kate Toretti
1º de julho de 2025

O que começou como um ato físico de serviço teve um grande impacto em uma comunidade de refugiados nos arredores de Atlanta, abrindo portas e corações para o evangelho.

Clarkston, na Geórgia, um subúrbio de Atlanta, é uma cidade oficialmente designada para o reassentamento de refugiados nos Estados Unidos. Conhecida como “o quilômetro quadrado mais diverso da América”, seus quase 15.000 habitantes representam mais de 150 grupos étnicos vindos de 40 países diferentes, incluindo Somália, Iraque, Sudão, Etiópia, Togo, República Democrática do Congo, Afeganistão, Butão e Mianmar.

Quando o bairro de Hartwell** foi construído, em Clarkston nos anos 1970, era considerado uma comunidade segura, com condomínios e quadras de tênis. Hoje, os moradores vivem em condições precárias e, às vezes, ocupando ou alugando quartos sem água encanada ou eletricidade.

Quando Daniel*, que trabalha no escritório da OM nos EUA, soube da oportunidade de ajudar em um mutirão de limpeza, em Hartwell em 2021, ficou animado para participar. “A grande maioria das pessoas da comunidade que visitamos era extremamente pobre e as condições de vida eram deploráveis”, lembra. “Os prédios estavam em péssimo estado. Um deles estava literalmente desabando. Cerca de dois terços do edifício haviam sido perdidos, em sua maioria por incêndios e uma parte de três andares estava sendo sustentada por apenas um poste de madeira.” Do lado de fora, além do mato alto e dos arbustos, a área estava cheia de lixo: colchões, móveis, entulho de construção, entre outros.

Líderes locais da comunidade haviam pedido ajuda com a limpeza e esse foi o ponto de entrada mais simples para os grupos. O objetivo do mutirão era simples: ajudar a restaurar a dignidade das pessoas que moravam ali e tornar a comunidade mais segura. O progresso foi lento, porque, às vezes, levavam um dia inteiro para limpar apenas uma pequena parte do local. Ainda assim, isso fez uma grande diferença, pois os moradores valorizavam as melhorias e, alguns, começaram a cuidar mais do ambiente ao redor. Em um dos primeiros dias de limpeza, uma mulher se aproximou falando emocionada e apontando para um arbusto recém-cortado. Alguém traduziu o que ela disse: “Fui abusada sexualmente atrás desse arbusto. Obrigada por cortá-lo.”

O grupo podou toda a vegetação excessiva até deixar o local mais aberto e visível. Após um ano de esforço constante, a polícia local relatou uma queda significativa nos índices de criminalidade na região.

Chegando ao coração

Com o tempo, os grupos de limpeza cresceram. As ações reuniram cristãos de diferentes áreas, ministérios e igrejas. Três anos depois, os mutirões ainda acontecem a cada seis semanas. Além disso, o grupo organiza atividades artísticas e recreativas para crianças, faz pequenos reparos como tapar buracos, distribui refeições individuais, realiza ações de ajuda pessoal e acompanha pessoas na burocracia local como tirar carteira de motorista ou acessar atendimento médico. Eles também fazem caminhadas de oração na região, conversando com quem está disposto e orando por relacionamentos mais profundos com o desejo de compartilhar o amor de Jesus com quem se sente esquecido e sozinho.

Daniel comenta: “As limpezas mal tocam a superfície. Queremos chegar ao coração. Talvez, o nosso impacto mais importante seja fazer amizades e caminhar junto com as pessoas em momentos difíceis. É aí que elas sentem o amor de Cristo de forma mais abundante.”

Há um estudo bíblico semanal na comunidade que foi iniciado há mais de uma década por um casal de outra organização. Depois de 10 anos discipulando uma mulher cristã chamada Bethany*, que faleceu recentemente, o casal chegou ao limite de seus recursos físicos e emocionais.

“Eles foram ameaçados com armas, viram pessoas sendo espancadas e muito mais. Precisavam de um descanso,” conta Daniel. “Três anos atrás, nos oferecemos para ajudar até que eles se recuperassem. Depois, nos pediram para continuar liderando o estudo.”

Todas as semanas, o estudo bíblico acontece abertamente em um estacionamento, com a presença de duas a dez pessoas, que entram e saem ao longo do tempo. Os participantes variam e alguns só conseguem ficar por alguns minutos. Às vezes, se reúnem em frente a um dos prédios para estudar a Bíblia, outras vezes apenas conversam, compartilham petiscos e chá doce somali. Quando Bethany, a primeira cristã da área que convidava outros regularmente para o estudo, morreu em um incêndio, houve dúvidas se o fogo foi acidental ou criminoso. Durante meses, o grupo foi a Hartwell sem saber se alguém apareceria. Mas, pouco a pouco, as pessoas começaram a voltar, principalmente somalis.

Recentemente, duas mulheres somalis decidiram seguir Jesus. Elas, junto com outro novo cristão somali, se reúnem semanalmente fora do bairro com parceiros cristãos somalis para serem discipulados em sua própria língua. Aos poucos, estão compartilhando o evangelho com amigos próximos e familiares, enquanto outros da comunidade escutam áudios da Bíblia em seus próprios idiomas.

Servindo como um só Corpo de Cristo

Sempre que participava de uma ação em Clarkston, Daniel orava: “Senhor, estou indo até lá. Guia meus passos. Dá-me um encontro divino.” E sua oração tem sido atendida repetidamente. “Eu posso planejar fazer uma coisa, mas Deus pode ter outros planos,” diz ele. “O que está acontecendo nessa comunidade não tem nada a ver conosco. É Deus quem está agindo nos corações. Nós apenas praticamos o “ide” e confiamos que Ele vai agir.”

Segundo Daniel, há muitos desafios. Ele diz que nem todos estão felizes com a presença de seguidores de Jesus na comunidade e que, ao longo dos anos, houve momentos em que parecia que tudo estava recomeçando do zero, por conta de retrocessos. Algumas pessoas trabalham em segredo para intimidar outras. Famílias, que antes deixavam seus filhos participarem das atividades, especialmente aquelas que demonstravam interesse em ler a Bíblia ou falar sobre Jesus, passaram a proibi-los de voltar. A barreira linguística também é um desafio, já que muitos moradores de Hartwell não falam inglês.

Esse é um esforço coletivo, sustentado por oração, com avanços e recuos, entre cristãos de diferentes igrejas, ministérios e nacionalidades, construído desde 2011. “A coisa mais incrível desse ministério são as conexões entre todos os parceiros que demonstram o amor e a unidade dos seguidores de Jesus,” diz Daniel. “Igrejas, ministérios e até organizações missionárias fazem parte. Não há um grupo dizendo: ‘Isso é nosso.’ Damos o crédito ao casal pioneiro que começou tudo e sempre os atualizamos quando algo importante acontece, dizendo: ‘Esse é o legado de vocês. Vocês fazem parte do que Deus está fazendo agora.’ Quando se crê no trabalho do Reino e na unidade do Corpo de Cristo, coisas assim se tornam possíveis.”

“Estamos orando para que esse grupo de três cristãos somalis se fortaleça e cresça na fé, tornando-se uma igreja local dentro da sua comunidade e, a partir daí, continue se multiplicando.”

*Nome alterado
**Nome do bairro modificado para preservar a privacidade

Lucie

1 comentário em “Chegando ao coração”

  1. Rejane Beserra

    Louvo a Deus , pelas vidas do todos vocês que estão empenhados em levar o evangelho de Cristo a esses povos, mesmo com dificuldades, perseguições, ataques, falta de estrutura financeira , de pessoas e ajuda por parte dos governantes. Deus tem fortalecido vocês na fé e perseverança. Senhor Jesus tem misericórdia desses missionários que estão no campo em obediência a tua palavra , renove-os a cada dia dando sabedoria , força , coragem, perseverança e fé para continuar cuidando dessas vidas.

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